Distrato de contrato civil: quando a multa contratual é abusiva

A cláusula penal pré-fixa a indenização, dispensa o credor de alegar prejuízo (Código Civil, art. 416) e desestimula o inadimplemento, mas não pode exceder o valor da obrigação principal (art. 412). O art. 413 impõe ao juiz o dever de reduzi-la equitativamente quando a obrigação tiver sido cumprida em parte ou o montante for manifestamente excessivo, à luz da natureza e da finalidade do negócio, sem necessidade de prova de má-fé. Os tribunais ponderam o percentual da multa sobre o valor do contrato, o estágio de execução e eventual acúmulo de penalidades pelo mesmo fato. A multa compensatória substitui, em regra, as perdas e danos (art. 410), enquanto a moratória pode ser exigida com o cumprimento da obrigação principal (art. 411); a indenização suplementar depende de previsão contratual (art. 416, parágrafo único). Na locação, a multa por devolução antecipada deve ser proporcional ao período cumprido (Lei 8.245/1991, art. 4º). Recomenda-se definir a natureza da multa, escalonar o percentual conforme a execução e prever o descumprimento parcial.
Henrique Valois - imagem de Distrato de contrato civil (1200 x 630 px)

É comum que contratos civis, de prestação de serviço, de compra e venda ou de locação, prevejam multa fixa para a parte que descumprir ou desistir do ajuste. O problema surge quando essa multa é cobrada integralmente mesmo diante de descumprimento parcial, ou quando o valor fixado é manifestamente superior ao prejuízo possível.

Função da cláusula penal

A cláusula penal tem dupla função: pré-fixar o valor da indenização, dispensando a parte prejudicada de provar o prejuízo exato (Código Civil, art. 416), e desestimular o inadimplemento. Ela não deve, no entanto, funcionar como penalidade desproporcional ao dano. Há um primeiro limite objetivo: o valor da multa não pode exceder o da obrigação principal (art. 412).

Código Civil, art. 413: a penalidade deve ser reduzida equitativamente pelo juiz se a obrigação principal tiver sido cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for manifestamente excessivo, tendo-se em vista a natureza e a finalidade do negócio.

O dispositivo impõe ao juiz um dever de revisão, e não apenas uma faculdade. Trata-se de norma de ordem pública, o que significa que a redução pode ocorrer mesmo sem pedido expresso e que as partes não podem renunciar antecipadamente a ela. Esse é um ponto que muitas partes credoras ignoram ao formular a cobrança integral.

Quando o juiz reduz a multa

A redução não depende de prova de má-fé. Basta demonstrar desproporção entre o valor da multa e o prejuízo razoavelmente esperado, ou cumprimento parcial da obrigação. Na prática, os tribunais costumam considerar:

  • O percentual da multa em relação ao valor total do contrato.
  • O estágio de execução do contrato no momento do descumprimento.
  • Se a multa acumula com outras penalidades pelo mesmo fato gerador.

Na locação, a lei já prevê essa lógica: a multa pela devolução antecipada do imóvel deve ser proporcional ao período de cumprimento do contrato (Lei 8.245/1991, art. 4º).

Diferença entre multa compensatória e moratória

A multa compensatória é estipulada para o caso de inadimplemento absoluto e converte-se em alternativa a benefício do credor, substituindo, em regra, as perdas e danos (art. 410). A moratória pune apenas o atraso ou o descumprimento de cláusula específica e pode ser exigida juntamente com o cumprimento da obrigação principal (art. 411). Em qualquer das duas, a indenização suplementar, além da multa, só é devida se o contrato a tiver previsto (art. 416, parágrafo único). Contratos mal redigidos frequentemente confundem as duas modalidades, e essa imprecisão é o que costuma gerar a maior parte das disputas sobre o valor devido.

Multa alta no papel não significa multa exigível na íntegra: o Judiciário revisa o que for desproporcional.

Como redigir para evitar a disputa

Definir expressamente a natureza da multa, escalonar o percentual conforme o estágio de execução do contrato e prever hipóteses de descumprimento parcial reduz sensivelmente o espaço para disputa sobre o valor no momento do distrato.

Aviso: este conteúdo tem caráter meramente informativo e não constitui aconselhamento jurídico nem promessa de resultado, em observância ao Código de Ética e Disciplina da OAB e ao Provimento nº 205/2021 do CFOAB.

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